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Êxodo venezuelano se equipara à crise no Mediterrâneo, admite ONU

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Ponte que liga San Antonio del Táchira, na Venezuela, a Villa Del Rosario, do lado colombiano: símbolo do êxodo de venezuelanos

A agência de migração da Organização das Nações Unidas (ONU) alertou que o movimento de refugiados da Venezuela caminha para o mesmo “momento crítico” visto no Mediterrâneo em 2015.

O alerta compara a forte imigração de venezuelanos para países vizinhos com a registrada em direção à Europa, onde o fluxo de pessoas entrando pelo mar Mediterrâneo, em fuga de guerras, dificuldades econômicas e de outros conflitos em suas regiões de origem, disparou nos últimos anos e levou os países de destino a levantarem barreiras ou a endurecerem as regras de entrada em seus territórios.

No caso da Venezuela, problemas como inflação nas alturas, escassez de alimentos (causa de fome e desnutrição), falta de remédios e produtos básicos têm sido os principais impulsos. Quatro em cinco venezuelanos vivem na pobreza, e é comum que as pessoas precisem ficar horas na fila para comprar comida. Há gente morrendo por falta de medicamento. A inflação alcançou 82.766% e pode chegar a um milhão por cento até o final do ano, segundo estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Segundo a Organização Internacional de Migração (OIM, da sigla em inglês), 2,3 milhões de venezuelanos já deixaram o país em meio à essa situação, que piorou significativamente a partir de 2015.

Estima-se que pelo menos 50 mil deles, ou 2%, tenham se fixado apenas no Brasil, até abril de 2018, um aumento de mais de 1000% em relação a 2015. O número leva em conta pedidos de asilo e residência (há denúncias constantes de perseguição a oposicionistas do governo esquerdista de Nicolas Maduro).

Nas regiões de fronteira, a tensão aumentou nos últimos dias, e governos buscam aumentar o controle de entrada dos imigrantes.

O Estado de Roraima, na região amazônica do Brasil, tentou fechar a fronteira, mas a proposta foi rejeitada pela Justiça no início deste mês.

Por ser a de mais fácil acesso, a cidade de Pacairama concentra a maior parte dos que cruzam a linha entre Venezuela e Brasil. A cidade foi palco de um conflito violento há uma semana, quando moradores expulsaram venezuelanos que estavam nas ruas da cidade e também queimaram seus pertences.

Outras fronteiras

No Peru, regulamentos de fronteira mais rigorosos entraram em vigor no sábado – um dia depois de uma tentativa do Equador de fortalecer seus mecanismos de controle ser anulada judicialmente.

Centenas de venezuelanos seguiram para a fronteira peruana, pelo Equador, antes da meia-noite de sexta-feira e do endurecimento da fiscalização.

Jonathan Zambrano, de 18 anos, que está em Tumbes, na fronteira entre o Equador e o Peru, disse à agência de notícias AFP que estava há cinco dias na estrada, junto com muitos outros.

Mais de 2,5 mil pessoas entraram na pequena cidade fronteiriça peruana de Águas Verdes na sexta-feira, com outras milhares tentando chegar ao país pelo principal ponto de travessia em Tumbes.

Apenas esse ponto tem registrado cerca de 3 mil chegadas de imigrantes por dia nas últimas semanas.

O Peru virou o novo lar de aproximadamente 400 mil imigrantes venezuelanos. A maioria desembarcou no país no ano passado, segundo a agência de imigração do Peru.

Com as novas regras vigentes, os venezuelanos precisarão ter passaportes válidos para entrar no país. Até então, eles eram autorizados a usar apenas com suas carteiras de identidade.

O Equador tentou implementar uma lei semelhante na semana passada. No entanto, na sexta-feira, um juiz considerou que exigir que os venezuelanos tenham passaportes válidos quebra acordos regionais sobre liberdade de movimentação.

Assim como no Brasil, também é possível ver nas ruas peruanas que nem todos os consideram bem vindos.

Giannella Jaramillo, que administra uma barraca de roupas em uma cidade perto da fronteira, disse à AFP: “Por um lado, sentimos muito pelo povo venezuelano, mas eles estão tirando o emprego dos peruanos. É difícil ajudar mais pessoas. ”

O equatoriano Gerardo Gutierrez tem uma percepção semelhante. “Ande dois quarteirões e você verá dez venezuelanos, ande mais dois e verá dez venezuelanos. Em países economicamente pobres, é difícil ajudar mais pessoas com o pouco que existe”.

O primeiro-ministro peruano, César Villanueva, disse que exigir que os venezuelanos mostrem seu passaporte na fronteira não significa que o Peru esteja “fechando a porta” para os imigrantes.

Ele afirmou que carteiras de identidade não fornecem informações suficientes e podem ser facilmente falsificadas.

O ministro das Relações Exteriores peruano, Néstor Popolizio, disse, por sua vez, que os venezuelanos podem solicitar vistos nos consulados do Peru na Venezuela, na Colômbia, no Equador ou até mesmo na fronteira em Tumbes.

Sinal de alerta

Joel Millman, porta-voz da OIM, disse que tudo isso – bem como os recentes episódios de violência na fronteira do Brasil – é um sinal de alerta precoce de que a região precisava de ajuda.

“Isso está caminhando para um momento de crise que já vimos em outras partes do mundo, particularmente no Mediterrâneo”, disse ele à imprensa.

“Uma situação difícil pode se tornar uma situação de crise muito rapidamente, e temos de estar preparados.”

No entanto, Chiara Cardoletti, da agência de refugiados da ONU (UNHCR, da sigla em inglês), disse que outros países da região acolheram os venezuelanos e estão ajudando a “evitar uma situação como a que vimos na Europa”.

“O que estamos vendo é um continente que tem aberto suas portas para as pessoas que estão fugindo e que precisam de apoio”, disse ela.

Cardoletti acrescentou que a Colômbia cadastrou e regularizou mais de 450 mil venezuelanos. A ONU estima que mais de 870 mil venezuelanos estejam na Colômbia, muitos deles em condições vulneráveis.

O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, vai montar uma equipe especial da organização para coordenar uma resposta regional à crise, enquanto o Equador vai sediar uma cúpula regional de 13 nações em setembro, na qual o tema deve ser debatido.

(Fonte: BBC Brasil – Foto: EPA/BBC Brasil)

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