Infecções silenciosas podem comprometer fertilidade e deixar sequelas permanentes


Estudo com mais de 857 mil mulheres associa clamídia a maior risco de infertilidade e outras complicações reprodutivas

Corrimento diferente do habitual, dor ou ardência ao urinar, desconforto no baixo ventre e dor durante a relação sexual podem ser sinais de infecções como clamídia e gonorreia. O problema é que, muitas vezes, elas não apresentam sintoma algum e podem permanecer no organismo por longos períodos sem diagnóstico.

É justamente esse caráter silencioso que preocupa os especialistas. Sem tratamento, as bactérias podem avançar pelo aparelho reprodutor e provocar inflamações capazes de deixar sequelas. “O fato de muitas vezes a clamídia e outras bactérias serem assintomáticas é muito preocupante porque as pessoas podem carregar essas bactérias por anos. Acabam não tendo a oportunidade de diagnosticar e tratar, enquanto elas vão agindo nas trompas e nos ovários”, explica o médico João Guilherme Grassi, especialista em reprodução humana.

Um estudo que acompanhou 857.324 mulheres ajuda a dimensionar esse risco. As participantes que tiveram diagnóstico positivo para clamídia apresentaram risco 85% maior de infertilidade em relação àquelas com resultado negativo. A pesquisa também apontou aumento no risco de gravidez ectópica e doença inflamatória pélvica.

Segundo Grassi, a infertilidade não ocorre pela simples presença da bactéria, mas pelas lesões que podem permanecer depois da infecção.

“Essas bactérias sobem pelo colo, atingem o útero e principalmente causam lesões progressivas nas tubas. Podem atingir o epitélio ciliar, responsável por carregar o óvulo e o embrião para dentro do útero, e também as fímbrias, dificultando a captura dos óvulos. O que acaba causando infertilidade são as sequelas inflamatórias e as cicatrizes nas trompas.”

Além de clamídia e gonococo, alguns tipos de Mycoplasma também são investigados por possíveis impactos sobre a saúde reprodutiva. No caso dos ureaplasmas, a relação com infertilidade depende da espécie e do quadro clínico e ainda exige cautela na interpretação.

O tratamento da infecção não significa necessariamente que uma lesão já provocada será revertida.

“Os danos podem e frequentemente são permanentes. Depois que essa parte delicada e microscópica da trompa sofre lesões, muitas vezes elas são irreversíveis. Em alguns casos, a paciente consegue engravidar, mas pode ter uma gravidez ectópica”, alerta o médico.

A recomendação é procurar atendimento diante de alterações como corrimento, dor pélvica, ardência ao urinar ou após uma situação de risco para IST. Para quem tenta engravidar, o histórico dessas infecções também deve ser informado ao médico.

“Não é toda paciente que teve uma doença sexualmente transmissível que vai ter dificuldade para engravidar. Mas, se é uma paciente jovem tentando há mais de um ano, deve buscar ajuda. Se tem mais idade e está tentando há mais de seis meses, também precisa procurar um especialista. O mais importante é manter os exames em dia, fazer acompanhamento ginecológico e ter relações sexuais com preservativo”, conclui Grassi.