Livro com o “Lado B” da história de Londrina será lançado na Bienal do Livro

“O menino que virava do avesso – Londrina 1964”, do jornalista londrinense Ney Inácio, será lançado na Bienal do Livro, em São Paulo, como resgate de parte da história da cidade

E se alguém o convidasse para passar um ano inteiro em 1964, dentro da vida de um menino de 10 anos, filho de um seleiro analfabeto e uma dona de casa que lavava roupa para fora, vivendo com outros cinco irmãos na periferia e convivendo com gente comum, numa espécie de Lado B da história conhecida de Londrina? Este é o convite que o londrinense Ney Inácio, jornalista, ator/autor/ diretor de teatro e documentarista faz no seu primeiro livro “O menino que virava do avesso – Londrina 1964”. Com cerca 400 páginas de memórias autobiográficas, o livro será lançado nos próximos dias 9 e 10 de setembro, na Bienal do Livro de São Paulo, a convite da Marupiara Editoração. O autor dará autógrafos no dia 9, a partir das 11 horas, e no dia 10, à partir das 21 horas.

A ideia inicial de Ney Inácio era lançar o livro primeiro em Londrina – o que ainda vai acontecer, dia 22 de setembro, no SESC Cadeião Cultural, dentro da programação Primavera no Museu. Mas surgiu o convite para a Bienal, feito por uma pessoa da editora que já o conhecia de outros trabalhos e que viu, em suas redes sociais, a capa do livro. “Essa pessoa me convidou e eu não pude resistir de estar na Bienal com meu primeiro livro”, conta. 

“O menino que virava do avesso – Londrina 1964” começa  de um encontro fictício entre um homem já idoso (o próprio Ney) com uma criança curiosa que  pergunta se a vida demora a passar ou voa rápido demais. O homem responde com uma proposta irresistível: “Vou te contar um ano da minha vida, quando eu tinha 10 anos. Aí você tira suas próprias conclusões”.

Segundo Inácio, a narrativa é memória pura, sem dados acadêmicos ou pesquisa documental. “Minha base foram minhas lembranças e eu sempre tive uma memória perfeita. Quem me conhece sabe que, mesmo nas minhas reportagens, nunca precisei anotar nada, nem nomes, datas, fatos”, conta. Seu método para reviver tudo e passar para o papel foi simples: ia até aos locais em que viveu (mesmo que não existissem mais), sentava no meio fio da calçada e lembrava. Aliás, passar para o papel é modo de dizer. Ali mesmo, onde estava, ele escrevia com dois dedos no aplicativo de anotações do celular. “O livro inteiro foi escrito está aqui, no meu telefone. Isso deu uma certa dor de cabeça para a edição”, brinca.

O livro tem um significado especial para o autor, que o escreveu durante o tratamento de um câncer, tomando 17 medicamentos por dia, além de fazer quimio, radio e hormonioterapia simultaneamente. “Eu estava só o pó da rabiola. Até que, um dia, encontrei uma senhorinha no Hospital do Câncer. E ela me disse uma coisa que eu nunca esqueci: ‘o câncer, ele gosta de pessoas fracas para montar em cima’. Aí pensei, o que eu posso fazer para continuar produtivo, para que o câncer ‘não monte em cima’ de mim? Trabalho eu não conseguia, porque ninguém dá trabalho para uma pessoa em tratamento de câncer. E eu sempre tive vontade de escrever. Aos 71 anos, achei que era a hora de contar as histórias que estavam na minha cabeça”, explica.

“O menino que virava do avesso – Londrina 1964” resgata parte dessas histórias. O livro mergulha na Londrina periférica, que sempre ficou longe das biografias dos pioneiros e da narrativa oficial de uma cidade conhecida pelas “oportunidades” que atraiam os migrantes de todo País e exterior. Vista pelos olhos de Kiko (apelido familiar do próprio Ney), um menino inquieto, curioso e criativo e que vivia “virando tudo do avesso”, como dizia uma de suas tias, o livro é a saga de uma das milhares de famílias que se deixaram seduzir pelas promessas de fartura e largaram tudo em seus estados para plantar café no Paraná.

“Meus pais vieram de Minas Gerais e acabaram encontrando mais dificuldades do que benesses por aqui. Eles perderam o pouco que tinham com a geada de 1963 – que foi tão forte quando a geada negra de 1975 –, com a seca e golpes. Acabaram nos bolsões periféricos da cidade, como milhares de outros, mas não perderam a dignidade nem a esperança de garantir a sobrevivência e o estudo dos seis filhos, mesmo no meio das maiores dificuldades”, diz o autor. 

O avesso da história 

O grande pano de fundo – ou o seu avesso –  é a própria Londrina em formação. O rádio – tão importante para aquela comunidade -, moldando opiniões e fazendo sonhar com as músicas da época; a chegada da televisão, as brincadeiras de rua – das mais inocentes às violentas; o machismo escancarado de uma época em que a traição era motivo de orgulho para os homens e a submissão feminina aceitava tudo isso como “normal”. O livro não suaviza nem romantiza o passado. Ele expõe, provoca e faz refletir. 

O cenário inclui ainda passagens pouco comentadas da história da cidade: a passarela que pegava fogo na linha do trem; os bastidores da Estação Ferroviária; as noitadas intensas da zona do meretrício – onde uma prima de Kiko, pioneira, decide abrir seu próprio negócio, aconselhada pela mãe do menino, Conceição, que era evangélica. “São contrastes humanos que revelam uma cidade pulsante, viva e, muitas vezes, cruel”, explica Ney Inácio.

No livro também estão personagens folclóricos que a história oficial nunca destacou e as gerações mais novas não conheceram: o Prefeito da Vila Nova, o Diamante, o Equilibrista e outros tipos “diferenciados” que povoavam Londrina. “Além disso, eu mostro o trabalho de muitos que estão fora do Memorial dos Pioneiros, ali na Praça Primeiro de Maio”, conta. “Os tropeiros, com seus causos e lendas, cruzam as páginas carregando animais e histórias, o seleiro – meu pai -, o carroceiro, o bucheiro e outros ‘eiros” ignorados pela crônica oficial”, diz. Segundo ele, ao contar o dia a dia de seu pai, o seleiro Zé Inácio – que trabalhava “como um cavalo”, como se dizia na época – é uma homenagem aos anônimos que ajudaram a forjar a cidade.

Kiko e o retrato de famílias

Porém, no centro de tudo está Kiko, o menino proibido de entrar no Cine Ouro Verde enquanto seus avós vendiam pipoca na porta. O garoto que cria um “cineminha” em casa, com caixa de sapato e lupa, que desenha, dubla, encenas penas na escola sem nunca ter visto teatro. O menino que já entendia, instintivamente, o poder de contar histórias.  

“O menino que virava do avesso – Londrina 1964” não é só a história de uma família. É o retrato de milhares que chegaram a Londrina e foram apagados dos registros oficiais pelo sucesso de alguns. “É um misto de memória afetiva, crítica social e homenagem aos que nunca subiram no palco das comemorações oficiais”, diz o autor.

Ao virar as páginas, o leitor vai rir das peraltices, se indignar com as injustiças, se emocionar com a luta de avós, pais e mães que insistiram em sonhar com uma vida melhor. E, no fim, como um bônus, também vai descobrir o que aconteceu com alguns dos personagens mais marcantes da história. Tudo isso acompanhada por uma playlist de músicas que embalaram o ano de 1964.

Depois de ler “O menino que virava do avesso”, talvez o leitor possa responder à pergunta que abriu o livro: o tempo passa rápido demais ou caminha devagar? Quem sabe, depois de viver esse ano ao lado do menino, você também tire suas próprias conclusões.

Quem é Ney Inácio

Ney Inácio  nasceu na Vila Nova  em Londrina, em 1954. Filho de mineiros, se formou jornalista na segunda turma do curso de Comunicação Social da UnivLersidade Estadual de Londrina (UEL), em 1980. Após a formatura, se tornou repórter de TV. Trabalhou nas TVs Coroados (hoje RPC), Cidade (Rede Massa) e Vanguarda. Foi fundador da Rede Independência de Comunicação. Também atuou como radialista nas Rádios Londrina e Alvorada, repórte no jornal O Estado do Paraná. Atuou na Rede Globo, afiliada de Maringá; na Rede Globo, afiliada Marília; Rede Globo, afiliada Ribeirão Preto; TV Centro América,  em Cuiabá; TV Verdes Mares, em Fortaleza;  TV Rio Sul,  em Resende (RJ),  TV Globo, São Paulo e SBT. em São Paulo. 

Ney também trabalhou como ator em diversas peças de teatro em Londrina, com o então Grupo Proteu; e é autor e diretor de de espetáculos de comédia nos teatros de São Paulo. Em seu currículo, ainda há o Ney documentarista, com filmes biográficos de sucesso. Produziu espetáculos musicais com grandes nomes da MPB antiga, como Cauby Peixoto, Ângela Maria, Agnaldo Timóteo, Agnaldo Rayol, Cláudi, Claudette Soares e outros. 

Ainda no jornalismo, Ney Inácio foi vencedor de três prêmios  Wladimir Herzog de Direitos Humanos; recebeu Comendas pela Assembleia Legislativa do Paraná, em Curitiba; e Assembleia Legislativa de São Paulo, por serviços prestados  na condição de jornalista.

Ficha técnica: Copyright © 2026 Ney Inácio ISBN 978-65-86198-63-8 Londrina – 2026 1ª edição – Editora Kan – 394 páginas

O cenário inclui ainda passagens pouco comentadas da história da cidade: a passarela que pegava fogo na linha do trem; os bastidores da Estação Ferroviária; as noitadas intensas da zona do meretrício – onde uma prima de Kiko, pioneira, decide abrir seu próprio negócio, aconselhada pela mãe do menino, Conceição, que era evangélica. “São contrastes humanos que revelam uma cidade pulsante, viva e, muitas vezes, cruel”, explica Ney Inácio.

No livro também estão personagens folclóricos que a história oficial nunca destacou e as gerações mais novas não conheceram: o Prefeito da Vila Nova, o Diamante, o Equilibrista e outros tipos “diferenciados” que povoavam Londrina. “Além disso, eu mostro o trabalho de muitos que estão fora do Memorial dos Pioneiros, ali na Praça Primeiro de Maio”, conta. “Os tropeiros, com seus causos e lendas, cruzam as páginas carregando animais e histórias, o seleiro – meu pai -, o carroceiro, o bucheiro e outros ‘eiros” ignorados pela crônica oficial”, diz. Segundo ele, ao contar o dia a dia de seu pai, o seleiro Zé Inácio – que trabalhava “como um cavalo”, como se dizia na época – é uma homenagem aos anônimos que ajudaram a forjar a cidade.

Kiko e o retrato de famílias

Porém, no centro de tudo está Kiko, o menino proibido de entrar no Cine Ouro Verde enquanto seus avós vendiam pipoca na porta. O garoto que cria um “cineminha” em casa, com caixa de sapato e lupa, que desenha, dubla, encenas penas na escola sem nunca ter visto teatro. O menino que já entendia, instintivamente, o poder de contar histórias.  

“O menino que virava do avesso – Londrina 1964” não é só a história de uma família. É o retrato de milhares que chegaram a Londrina e foram apagados dos registros oficiais pelo sucesso de alguns. “É um misto de memória afetiva, crítica social e homenagem aos que nunca subiram no palco das comemorações oficiais”, diz o autor.

Ao virar as páginas, o leitor vai rir das peraltices, se indignar com as injustiças, se emocionar com a luta de avós, pais e mães que insistiram em sonhar com uma vida melhor. E, no fim, como um bônus, também vai descobrir o que aconteceu com alguns dos personagens mais marcantes da história. Tudo isso acompanhada por uma playlist de músicas que embalaram o ano de 1964.

Depois de ler “O menino que virava do avesso”, talvez o leitor possa responder à pergunta que abriu o livro: o tempo passa rápido demais ou caminha devagar? Quem sabe, depois de viver esse ano ao lado do menino, você também tire suas próprias conclusões.

Quem é Ney Inácio