Projeto da UEL traça perfil dos cuidadores de acamados

Os cuidados com pacientes acamados envolvem o apoio na alimentação e nos tratamentos de saúde, além de higiene, mobilidade, administração de medicamentos, lazer e o estímulo à convivência social, familiar e comunitária. Diante de uma dura rotina de trabalho, o questionamento sobre a qualidade de vida dos cuidadores vem se tornando cada vez mais presente, exigindo maior atenção da sociedade especialmente em um contexto de crescimento da parcela da população idosa e da necessidade de qualificação para o cuidado. A partir deste cenário, duas estudantes de graduação da UEL estão colocando uma lupa sobre esta realidade no Norte do Paraná, por meio de um projeto de pesquisa financiado pelo Itaipu Parquetec com o Programa de Extensão para Sustentabilidade Territorial. Ao todo, 11 projetos da UEL foram contemplados e apresentarão os resultados no Festival Iguassu Inova, realizado pela Itaipu Binacional e pelo Governo Federal em outubro.  

A pesquisa com os cuidadores está sendo realizada pelas estudantes Ana Clara Zanoni do Rego, 20, do terceiro ano do Psicologia, e Maria Fernanda de Jesus Costa e Souza, 21, do terceiro ano do bacharelado em Ciências Sociais. A ideia surgiu por meio do contato com o professor do Departamento de Microbiologia (CCB) Ricardo Sérgio Couto de Almeida, coordenador do projeto de extensão Atenção Domiciliar. Com o objetivo de promover o cuidado com a higiene bucal de pacientes acamados dependentes, o projeto Atenção Domiciliar atua em Cambé (RML) em parceria com a ONG Acamados Mais Amados, criada por Maria Inês Madalosso Belanson em 2007. 

“O objetivo foi tornar o projeto multidisciplinar e os dados que estamos colhendo são maravilhosos. Queremos saber como eles se sentem cuidando de outras pessoas”, conta o professor, destacando a importância do financiamento da Itaipu Parquetec, que apoia os projetos com bolsas de estudos e computadores. 

Ana Clara Zanoni do Rego, Maria Inês Madalosso, Maria Fernanda de Jesus e Ricardo Couto de Almeida. (Foto: arquivo pessoal).

Até agora, 34 entrevistas foram realizadas pelas duas estudantes. Maria Fernanda está levantando o perfil demográfico por meio da metodologia discutida na disciplina de Políticas Públicas e Métodos Quantitativos e Qualitativos. Já Ana Clara está pesquisando o nível de sobrecarga emocional dos cuidadores, em sua maioria pessoas com mais de 50 anos e que atuam de maneira informal em função do vínculo familiar com os pacientes acamados, uma realidade que sobrecarrega principalmente as mulheres. “Podemos verificar que são pessoas que muitas vezes abdicaram das próprias vidas para darem uma melhor qualidade de vida aos acamados. Muitos já estão na casa dos 50, 60 anos, já têm problemas de saúde também, e estão tendo os seus problemas de saúde agravados”, relata Maria Fernanda.  

Para realizar a pesquisa, a estudante Ana Clara Zanoni do Rego está aplicando um questionário desenvolvido especificamente para cuidadores de idosos, chamado Calculadora de Zarit. Com perguntas objetivas, a calculadora aponta níveis de sobrecarga entre leve, moderado e grave. 

Um aspecto que chama a atenção, relata Maria Fernanda, é a dificuldade do reconhecimento do próprio nível de sobrecarga e estresse emocional e físico por parte de quem cuida mas não recebe o cuidado, algo que pode estar permeado por outros sentimentos. “O que conseguimos perceber já é que muitas pessoas não conseguem afirmar. Respondem o questionário, mas enquanto estamos fazendo as entrevistas elas se contradizem. Então está sendo muito importante as entrevistas para abrir esse canal de diálogo. Existe um estigma porque você tem uma responsabilidade muito grande de cuidar de um familiar e quando essa responsabilidade é colocada sobre você tudo se torna muito difícil. Então tem muitas pessoas que não conseguem admitir porque é uma coisa ruim estar sobrecarregado e estar cansado de fazer isso”, relata.

Projeto de lei

Em julho, a Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa do Senado Federal aprovou o projeto de lei que regulamenta a profissão de cuidador de idosos no Brasil, reconhecendo o cuidado como trabalho essencial para o bem-estar, autonomia e dignidade da população. A regulamentação ocorre na esteira da criação da Política Nacional de Cuidados (Lei 15.069), pela Presidência da República, que estabelece responsabilidade social entre Estado, família, setor privado e sociedade civil e aborda a promoção do trabalho decente para os trabalhadores do cuidado. 

Entre 2000 e 2023, a proporção de idosos no Brasil quase duplicou, subindo de 8,7% para 15,6%, segundo a pesquisa Projeções de População do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A projeção aponta que a parcela de pessoas com mais de 60 anos no Brasil será de 37,8% em 2070, o que representa 75,3 milhões de brasileiros. 

Atenção Domiciliar 

Vinculado ao curso de Odontologia da UEL, o projeto de extensão Atenção Domiciliar: higiene bucal de pacientes acamados dependentes foi criado em 2022 e conta com a participação de 34 alunos divididos em oito grupos. Acompanhados dos professores, os grupos realizam a consulta, que envolve a limpeza e até pequenos procedimentos, além da orientação aos familiares e a doação de produtos de higiene. 

Recentemente, o projeto viabilizou a doação de escovas de dente especiais com sucção, que comprovadamente reduzem a carga microbiana de bactérias patogênicas na saliva dos pacientes. As visitas domiciliares são realizadas junto aos docentes e são viabilizadas pela parceria com a ONG Acamados Mais Amados, sediada no Jardim Tupi, em Cambé. Além do professor 

Ricardo Sérgio Couto de Almeida, participam do projeto os professores Ademar Takahama Junior, Andres Felipe Cartagena Molina, Antonio Carrilho Neto, Ricardo Sergio Couto de Almeida e Wilson Jose Garbelini.

Fonte: Agência UEL