Um procedimento pouco disponível no Brasil mudou a rotina de um paciente de 82 anos em Londrina e abriu caminho para o tratamento de casos cardíacos complexos. A Hemodinâmica do Hospital Araucária realizou a primeira intervenção no Paraná com a aterectomia orbital, tecnologia indicada para artérias coronárias com calcificação severa, uma das situações mais desafiadoras da cardiologia intervencionista.
O procedimento foi conduzido pelo cardiologista intervencionista Dr. Luciano Silva e teve como paciente o aposentado de 82 anos, José Pedro. Há dois anos convivia com a indicação de cirurgia cardíaca convencional mas ele decidiu adiar o tratamento por um motivo pessoal: precisava cuidar da esposa, diagnosticada com Alzheimer, e não poderia enfrentar um período de três a quatro meses de recuperação com restrições físicas.
“Eu sabia que precisava fazer a cirurgia, mas não tinha como. Minha esposa depende de mim e eu não podia ficar meses em recuperação. Quando me falaram dessa alternativa, foi um alívio. Fiz o procedimento e no dia seguinte já estava em casa”, contou o paciente.
A técnica utilizada foi a aterectomia orbital com sistema Diamondback 360, indicada para lesões extremamente calcificadas que dificultam a angioplastia convencional. O dispositivo possui uma ponta com micropartículas de diamante que gira em alta velocidade, promovendo a modificação da placa calcificada e permitindo a implantação segura do stent.
Esse tipo de calcificação é considerado um dos cenários mais complexos da hemodinâmica, pois o endurecimento da artéria impede a expansão adequada de balões e stents tradicionais. Com a nova tecnologia, o cálcio é fragmentado e a artéria preparada de forma mais completa para o tratamento.
Segundo o Dr. Luciano Silva, o recurso amplia as possibilidades terapêuticas para pacientes que antes tinham indicação quase exclusiva de cirurgia aberta. “A calcificação extrema é um dos maiores desafios da cardiologia intervencionista. Com essa tecnologia conseguimos avançar em casos muito graves e oferecer uma alternativa menos invasiva, com recuperação mais rápida”, explicou.
O procedimento é realizado por cateterismo e permite retorno precoce às atividades, especialmente importante em pacientes idosos ou com outras limitações clínicas. No caso de José Pedro, a alta ocorreu no dia seguinte e ele já retomou a rotina de cuidados com a esposa.
A aterectomia orbital é uma tecnologia recente, com número ainda restrito de aplicações no país. Até o momento, são cerca de 32 procedimentos realizados em todo o Brasil, dentro de um universo aproximado de 1.200 médicos hemodinamicistas. O caso realizado em Londrina está entre essas primeiras experiências clínicas, sendo a primeira do Paraná.
A equipe já tem outro procedimento programado. Um novo paciente deve ser submetido à técnica nesta quarta-feira, também com indicação por calcificação coronária grave, reforçando o uso da tecnologia em situações de maior complexidade.