Deficiência de vitamina B12: um problema silencioso que vai muito além da anemia

A deficiência de vitamina B12 é reconhecida há mais de um século como um importante problema de saúde pública. Apesar de frequentemente ser associada apenas à anemia, seus efeitos podem atingir diversos órgãos, especialmente o sistema nervoso, comprometendo a qualidade de vida e, em alguns casos, causando sequelas permanentes quando o diagnóstico é tardio. Estima-se que a deficiência acometa cerca de 2% a 4% da população adulta dos Estados Unidos, enquanto a insuficiência da vitamina (níveis reduzidos, mas ainda sem deficiência estabelecida) pode atingir aproximadamente 12% dos adultos.

A frequência aumenta com o envelhecimento e em grupos de maior risco, como idosos, pessoas submetidas à cirurgia bariátrica, veganos e alguns vegetarianos sem suplementação adequada, além de indivíduos em uso prolongado de metformina e inibidores da bomba de prótons (medicamentos utilizados para reduzir a produção de ácido no estômago, como omeprazol, pantoprazol e esomeprazol).
No Brasil, embora não existam estudos populacionais que permitam estimar sua prevalência, a deficiência de vitamina B12 é considerada relativamente comum na prática clínica, principalmente entre idosos e indivíduos com doenças gastrointestinais ou condições que comprometem sua absorção.

O que é a vitamina B12?
A vitamina B12, também chamada de cobalamina, é uma vitamina hidrossolúvel essencial para o funcionamento do organismo. Ela participa da formação das células do sangue, da síntese do DNA e da manutenção do sistema nervoso. Além disso, é indispensável para a formação da bainha de mielina, estrutura que reveste e protege as fibras nervosas, garantindo a adequada transmissão dos impulsos nervosos.

Como a vitamina B12 é absorvida?

A absorção da vitamina B12 depende de várias etapas. Inicialmente, ela se liga ao fator intrínseco, uma glicoproteína produzida pelas células parietais do estômago. Esse complexo segue até o íleo terminal, a porção final do intestino delgado, onde ocorre a absorção da vitamina.Após ser absorvida, a vitamina B12 é armazenada principalmente no fígado. Como o organismo possui reservas relativamente grandes, a deficiência costuma se desenvolver lentamente, podendo levar anos para se manifestar quando a ingestão é insuficiente ou quando há comprometimento da absorção.

Sintomas da deficiência

A deficiência de vitamina B12 pode se desenvolver lentamente e, nos estágios iniciais, causar sintomas inespecíficos. Com a progressão do quadro, podem surgir manifestações hematológicas e neurológicas como:Cansaço e fraqueza; Palidez; Falta de ar aos esforços; Dificuldade de concentração; Anemia megaloblástica; Formigamentos nas mãos e nos pés; Perda de sensibilidade; Alterações do equilíbrio; Dificuldade de memória e comprometimento cognitivo; Alterações de humor e depressão. Embora muitos desses sintomas possam ser revertidos quando o diagnóstico e o tratamento são realizados precocemente, a deficiência prolongada pode causar lesões neurológicas permanentes, como a degeneração combinada subaguda da medula espinhal. É importante destacar que as manifestações neurológicas podem ocorrer mesmo na ausência de anemia.

Quem tem maior risco de deficiência?

Pessoas com anemia perniciosa: doença autoimune que compromete a produção ou a ação do fator intrínseco, essencial para a absorção da vitamina B12.

Pacientes submetidos à cirurgia bariátrica ou com doenças que afetam o intestino delgado, como doença de Crohn, doença celíaca e ressecção do íleo terminal.

Veganos e alguns vegetarianos que não realizam suplementação adequada.

Pessoas expostas ao óxido nitroso (“gás hilariante”), utilizado como anestésico em procedimentos médicos e odontológicos ou de forma recreativa.Idosos, devido à redução da produção de ácido gástrico e do fator intrínseco.

Pacientes com gastrite atrófica, condição que reduz a produção de ácido gástrico e do fator intrínseco.

Usuários de metformina por tempo prolongado.

Usuários crônicos de inibidores da bomba de prótons, medicamentos utilizados para reduzir a produção de ácido no estômago, como omeprazol, pantoprazol e esomeprazol.

Pessoas em fases de maior demanda nutricional, como gestantes, lactantes, crianças e adolescentes em crescimento, especialmente quando a ingestão de vitamina B12 é insuficiente.

Diagnóstico

O diagnóstico da deficiência de vitamina B12 não deve ser baseado apenas em um único exame laboratorial. A interpretação dos resultados deve considerar os sintomas, o histórico clínico, os fatores de risco e, quando necessário, exames complementares.

Os principais exames utilizados são: Vitamina B12 sérica total (cobalamina): exame mais utilizado para avaliação inicial. Holotranscobalamina (vitamina B12 ativa): corresponde à fração biologicamente disponível para as células. Ácido metilmalônico: costuma estar aumentado na deficiência de vitamina B12 e pode auxiliar na confirmação do diagnóstico. Homocisteína: também pode estar elevada na deficiência de vitamina B12, embora seja menos específica.

Tratamento
O tratamento da deficiência de vitamina B12 consiste na reposição da vitamina. A dose, a duração e a via de administração dependem da causa da deficiência e da gravidade do quadro clínico.Nos casos de deficiência causada por ingestão insuficiente, a suplementação por via oral costuma ser suficiente. Já quando há comprometimento da absorção, como na anemia perniciosa ou após cirurgia bariátrica, pode ser necessária a reposição por via intramuscular ou por via oral em doses elevadas, conforme avaliação médica.Além da reposição da vitamina, é fundamental identificar e tratar a causa da deficiência para reduzir o risco de recorrência.

PrevençãoA prevenção da deficiência de vitamina B12 depende da adoção de medidas compatíveis com o perfil de risco de cada pessoa. Manter uma alimentação que inclua fontes de vitamina B12, realizar suplementação quando indicada (como para veganos) e acompanhar periodicamente os níveis da vitamina em indivíduos de maior risco, como idosos, pacientes submetidos à cirurgia bariátrica e pessoas em uso prolongado de metformina ou de inibidores da bomba de prótons, são medidas importantes para prevenir a deficiência.

Principais fontes alimentares de vitamina B12

A vitamina B12 é encontrada naturalmente em alimentos de origem animal, sendo as principais fontes: Carnes bovinas;Peixes e frutos do mar;Frango;Ovos;Leite e derivados.

Excesso de vitamina B12

A vitamina B12 apresenta baixa toxicidade e não há evidências de efeitos adversos relacionados ao seu consumo em indivíduos saudáveis.Entretanto, níveis elevados de vitamina B12 nos exames nem sempre indicam excesso de ingestão. Em algumas situações, podem estar associados a doenças hepáticas, renais ou hematológicas, devendo ser avaliados por um médico.

Créditos: Adriana Stavro – Nutricionista Mestre pelo Centro Universitário São Camilo 

Curso de formação em Medicina do Estilo de Vida pela Universidade de Harvard Medical School

Especialista em Doenças Crônicas não Transmissíveis (DCNT) pelo Hospital Israelita Albert Einstein 

Pós-graduada em Nutrição Clínica Funcional pelo Instituto Valéria Pascoal (VP) Pós-graduada EM Fitoterapia pela Courses4U.

Instagram – @nutriadrianastavro – Mais informações https://lattes.cnpq.br/